quinta-feira, março 10, 2011

If you surrender

Quantas pessoas você conhece te ouvem de verdade? Aquele tipo de gente que, enquanto você está contando algo importante, não foge do assunto colocando na conversa um problema próprio (e desvia tudo) ou que demonstra interesse genuíno pelo que você está falando. Eu acho que conheço três. E acho que isso me causa uma certa aflição. Talvez aflição não seja a palavra certa. Acredito que seja perplexidade. Uma perplexidade que criou, em mim, um hábito horroroso. Nas raras vezes em que me abro com as pessoas, lanço a pergunta, no meio do discurso: "Tá muito chato esse papo?".

Na época em que fazia análise, na terceira vez em que fiz essa mesma pergunta para o analista, ele riu e me perguntou de onde vinha essa minha mania de achar que tudo o que eu falava era chato. Pensando sobre isso hoje, acho que responderia que vem da falta de disposição das pessoas para as histórias alheias. Elas só querem falar, falar e falar. E só falam sobre elas próprias (o que é pior, na minha opinião). Mas, de verdade, não me lembro do que respondi na época. Tenho um amigo (o mesmo que eu citei no último post, que me presenteou com a frase sobre instintos) que diz que normalmente se sente como um "grande ouvido" em todas as relações que estabelece. Entendo perfeitamente o que ele quer dizer. Eu sou assim. Ouço muito o que é dos outros, falo pouco sobre mim.

Tem uma outra coisa que me dá um tremendo desânimo. É quando as pessoas fazem pouco caso das minhas referências. Uma música que me tocou profundamente, um filme que é para lá de especial para mim, ou ainda um texto que quase me levou às lágrimas. Mostro para alguém como se aquilo fosse realmente um presente e a pessoa nem liga. Fico para morrer e confesso que me torno vingativa nesses momentos. Faço questão de "não ligar" também para tudo aquilo que a pessoa me mostrar nos meses seguintes. Mesmo que suas referências sejam infinitamente boas.

A lição disso tudo eu não sei qual é. Mas agora, revendo o pouco que escrevi até aqui, acho que talvez seja isso o que me motiva a publicar textos neste blog. Mesmo sem fazer nenhum tipo de propaganda, acho que quem vem aqui (intencionalmente ou por acaso) me ouve de verdade. Aí o número de ouvintes, que no meu dia a dia se resume a três, sobe um pouco. E aqui eu posso fazer aquilo que mais odeio que as pessoas façam na vida real. Falar, falar e falar. Só sobre mim.

Vai uma música, para não perder o costume. É uma das minhas referências dos últimos tempos, que só posso dividir com quem me ouve de verdade. É antiga, mas é tão linda que acho que não tem data.



I'll let you stay with me, if you surrender.

segunda-feira, março 07, 2011

E se eu não ligasse?

Comecei a ouvir a música porque achei uma graça. E porque o nome dela é "What if". E eu adoro qualquer pergunta que comece por aí. Então, como quem não queria nada, comecei a prestar atenção na letra. Lá pelo finalzinho, vem a pergunta que me fez começar a escrever este texto: "What if I didn't care, would you fall in despair?". Não há criatura no mundo que nunca tenha pensado nisso. Ou que também já não tenha passado por isso.

Você gosta da outra pessoa e ela mal te dá bola. Ou faz coisas que não deveria fazer, ou não te faz feliz como deveria - complete aí como quiser. Você começa a olhar para os lados, percebe que talvez pudesse ser feliz de outra forma, tenta dar outro rumo para a vida e simplesmente passa a não ligar (e esse "ligar" não vem do verbo telefonar). Pronto, é o suficiente para essa outra pessoa te querer como nunca. E aí surge aquele pensamento recorrente (leia com aquela voz de sabedoria, como se fosse um ser superior): a gente só quer aquilo que não pode (ou acha que não pode) ter.

Por muito tempo eu fui assim, só queria aquilo que não podia ter. Já deu para perceber como bati cabeça por aí. E eu nunca consegui entender a origem disso, dessa coisa tenebrosa de correr atrás daquilo que não te quer. O curioso é que o tempo vai fazendo a gente mudar - e eu nunca acreditava na minha mãe quando ela dizia isso. Hoje, só de perceber que alguém não está correspondendo à altura (e digo isso não só em relação a envolvimentos amorosos), eu sou a primeira a pedir para o trem parar porque eu quero descer. O problema é que acho que passei para o outro lado com muita vontade. Acho que fiquei tão calejada que qualquer coisa boba passou a ser um sinal de "não me quer".

Eu sempre recorro às palavras de um amigo para não me sentir mal com essa minha incapacidade de compreender o que significam determinadas atitudes de outras pessoas. Uma vez ele disse que eu tinha que confiar nos meus instintos, pois a maior parte dos nossos erros acontece quando não confiamos neles. Costumo pensar nisso quando tenho que tomar decisões importantes. Mas o que eu não deixo de pensar, todos os dias, é que gostaria de me matricular em um bom curso de "treinamento de instintos". Alguém conhece?

Segue a música. É de uma cantora chamada Blubell (amei o nome).



Vale prestar atenção às outras perguntas.

terça-feira, janeiro 11, 2011

O primeiro beijo perfeito

Encontrei a minha cena de beijo preferida de todos os tempos. Tá que eu já falei de "Felicity" (a série daquela menina cabeluda) aqui uma vez e não foi há muitos posts. Mas eu peguei o último episódio de todas as temporadas passando hoje na TV por acaso. E lembrei que vem desse programa a minha ideia de primeiro beijo perfeito.

A conversa entre eles é a seguinte: o cara está tentando convencer a menina de viajarem juntos, sendo que ele acabou de terminar o namoro com uma grande amiga dela e ela está pensando em viajar com o próprio namorado. Eles discutem ainda sobre um beijo que quase rolou alguns dias antes e como isso pode vir a ser um problema se decidirem cruzar o país juntos, nas férias que vão começar. Ele diz: "Isso só se tornou uma questão porque, naquele momento, a gente não se beijou. Virou uma grande pergunta não respondida". Ela diz que ele tem razão. Passam-se três segundos e, do nada, sem nem deixar um intervalinho de tempo para ela pensar, ele vai lá e (barulho de estalo de dedo) beija.

É ele, o fator surpresa. É isso que faz desse beijo o meu preferido. Não existe nada melhor e mais meu amigo do que o fator surpresa. Porque são poucas as pessoas e as coisas que têm a capacidade de realmente me surpreender. E ser surpreendida é das coisas que eu gosto mais no mundo. Crianças, para mim, têm esse poder: dizem e fazem coisas inesperadas, em horas mais inesperadas ainda. Pensando agora, não deve ter sido à toa que escolhi trabalhar com elas, de alguma forma.

Mas, à medida que a gente vai crescendo, acho que vai também perdendo essa capacidade de surpreender os outros. Talvez a gente vá perdendo a autenticidade, não sei bem. E talvez isso explique por que, em algumas fases da minha vida, venho dando tantas chances aos meus impulsos. Pode ser uma tentativa de sair surpreendendo por aí. Mas impulsividade é assunto para outro texto.

No final das contas, eu me dou conta mesmo é de que não tenho tantas lembranças de beijos inesperados na minha longa (ou, dependendo do ponto de vista, pequena) existência. Os meninos adultos não são tão surpreendentes assim. E aí, como será que se resolve isso? Carnaval em Salvador? Ah, não, já passei por essa experiência, tinha esquecido. Resolve não. Na falta de uma resposta, acho que vou publicar este texto no blog e esperar para ver o que acontece depois. Vai que algo realmente acontece? Surpresas são imprevisíveis mesmo. Essa é a beleza da coisa.


Aí a cena. O beijo mesmo só acontece por volta de 1:57. Por que essa nova mania de vídeos? Ainda não descobri.



I wanted to do that for a long time. Melhor frase do mundo para se dizer depois. Até nisso o cara é bom.

domingo, dezembro 19, 2010

O meu rancor

Onde você costuma guardar o seu rancor? Dizem que o Mark Zuckerberg transformou o dele em bilhões de dólares. Tinha levado um pé na bunda da namorada e estava puto por não ser aceito naquelas fraternidades loucas americanas. O resultado: cheio de rancor no coração, ele foi lá e criou o Facebook. Reza a lenda ainda que o sujeito hoje tem dois cartões. Um que diz "Mark Zuckerberg - CEO" e outro que diz "Mark Zukerberg - I'm CEO... bitch!".

Incrível como a maioria diz ter desprezo por esse sentimento, enquanto eu, cada vez mais, acho que ele move as pessoas. O mais louco é que, impedida por uma etiqueta social que não me permite colocá-lo para fora (sob pena de ser tachada de descontrolada), percebi que fiquei viciada naquilo que chamo de "músicas de rancor". Tenho verdadeira adoração por elas, sou capaz de ouvi-las por horas e ainda cantá-las com toda força quando estou sozinha.

Existem poucas coisas mais libertadoras que berrar And I'm here to remind you / Of the mess you left when you went away. A Lily Allen também é mestra em criar letras assim: At first when I see you cry / Yeah it makes me smile, yeah it makes me smile / At worst I feel bad for a while / But then I just smile / I go ahead and smile. E o melhor é que canta isso com aquela vozinha mais doce do mundo.

Para completar, descobri nos últimos dias outra música ótima também. O refrão é assim: When you see my face / Hope it gives you hell, hope it gives you hell / When you walk my way / Hope it gives you hell, hope it gives you hell. Quer sentimento mais genuíno que esse? Eu espero, do fundo do meu coração, que, quando você me vir, isso te infernize. Quantas vezes eu já não quis dizer isso na cara de um monte de gente? Tenho ouvido essa música incessantemente para compensar.

Mas a verdade é que não dá para sair contando isso para todo mundo. Até porque as respostas vão ser sempre naquele sentido do "guardar rancor nunca é bom, minha filha". Pois eu vou além e digo: sublimar o rancor é que não faz bem. Bom mesmo é colocá-lo todo para fora. E ficar bilionário logo depois, de preferência.

Agora aumenta o seu volume aí:



"Gives You Hell" - The All-American Rejects

terça-feira, setembro 07, 2010

E se...

Por muito tempo eu quis escrever sobre um troço chamado "e se". É uma brincadeira que eu vivo fazendo comigo mesma. Funciona assim: você começa a se fazer um monte de perguntas, todas começando com "e se". Você pode completar os seus "e se" com possibilidades bobas, claro. Mas no meu caso nunca é assim. Está mais para: "E se eu largasse este emprego no mês que vem?"; "E se eu vendesse o apartamento, o carro e fosse embora?"; "E se eu decidisse que agora quero ter um filho?". A graça é imaginar que há uma infinidade de possibilidades na vida. A não-graça é que, muitas vezes, você não tem o menor controle sobre o que pode acontecer se resolver dar cabo ao seu "e se" do momento.

Antes de tomar uma das últimas atitudes drásticas da minha vida, tinha ouvido uma frase mais ou menos assim: "É preciso ter coragem para ser feliz". Foi em um programa de televisão. Comecei a chorar e achei que alguém estava me mandando uma mensagem. Aquilo se encaixava perfeitamente na minha brincadeira do "e se". Porque existem pessoas que ficam eternamente brincando. Ficam só na imaginação do que poderia acontecer, mas não têm a coragem de arriscar.

Eu falei no primeiro parágrafo que a não-graça do "e se" é a falta de controle sobre o que pode acontecer. Pois é, a vida tem disso. Quando a gente resolve dizer sim a uma dessas perguntas importantes, tem que aceitar que está quase como se jogando de um precipício. E pode ser mais doloroso do que se imagina. No meu caso foi.

Mas o mundo está cheio de mensagens como essa da coragem para ser feliz. Há poucos dias, lendo a coluna de uma amiga, eu achei outra. Ela falava sobre o risco que é se dizer para alguém "eu te amo". Aí, um dos leitores comentou: "Acho que vale a pena correr o risco. Não dar certo é apenas uma das possibilidades. A outra… A outra é ser feliz!". Acho que vou retomar a minha coragem e ir logo ali me atirar do precipício de novo.

terça-feira, fevereiro 23, 2010

32 de março

Lembro do meu aniversário de 5 anos. É o primeiro que eu consigo me lembrar. Eu ia fazer 5 anos no dia 5 de março, e a associação foi imediata na minha ingênua cabecinha de criança: o dia do aniversário variava de acordo com a idade. Pô, 5 anos no dia 5. No ano seguinte, 6 anos no dia 6, claro. Quem haveria de discordar de tal brilhante conclusão? Não é mentira, não, juro que pensei isso. E agora acho curioso ter lembrado dessa história no ano em que faço 31. Penso que seria a minha última chance de ter uma idade que casasse com um dia do mês. Pois não existe um 32 de março. Nem nunca vai existir.

O que isso significa? Que estou velha para devaneios e deveria cair na real? Que os dias realmente nunca casam com as nossas idades e, se eu não aprender isso agora, a partir do ano que vem vou ter que aprender na marra?

Fazer 31 anos agora já me parece até moleza. Medo de fazer 32.

domingo, outubro 26, 2008

Sobre cheiros e defeitos

Depois de já ter morado com tantas pessoas diferentes na minha casa, descobri que o cheiro dessas pessoas também habita (ou habitava, já que quase todas foram embora) o apartamento. Só de passar por um armário que não é o meu, eu consigo sentir o cheiro da pessoa. E é engraçado como a gente perde a razão na hora de avaliar se ele é bom ou não. Se a gente gosta muito de alguém, o cheiro dessa pessoa se torna automaticamente bom.

Tenho uma amiga que diz que começou a se interessar pelo namorado por causa do perfume que ele usava. É a eterna discussão de quem nasceu antes, o ovo ou a galinha. Ela gosta dele por causa do seu cheiro ou gosta do cheiro porque é dele? Eu aposto na segunda opção.

Mas o que mais me intriga nesses devaneios é que sou incapaz de saber qual é o meu próprio cheiro. Acho que somos todos incapazes. Nem mesmo quando abro meu próprio armário tenho a real percepção. Talvez por isso eu relacione, com certa freqüência, os cheiros aos defeitos. A maioria das pessoas, acredito, não tem a real dimensão dos seus próprios defeitos. Mas tem a dimensão exata dos defeitos daqueles que estão próximos.

Às vezes eu consigo me dar conta dos meus defeitos. É como um daqueles momentos em que pego uma roupa minha, cheiro e consigo sentir alguma coisa. É raro e passa rápido. Quem sabe eu não seria uma pessoa melhor se me concentrasse mais em sentir o meu próprio cheiro? Depois de muito treino, eu poderia partir com sucesso para a lista dos meus defeitos.

terça-feira, outubro 02, 2007

Abstinência de Felicity

Eu ia escrever um texto sobre cheiros, já tinha até meio que preparado. Mas vai ficar para a próxima. Estava em Los Angeles, andando meio sem rumo, e por acaso entrei naquela loja imensa de CDs, DVDs e milhares de outras coisas, a Virgin. Eu estava no meu último dia de viagem, não querendo voltar para o hotel. E, claro, parei para olhar os DVDs de séries.

Foi aí que o texto de cheiros ficou para segundo plano. Encontrei, de primeira olhada na estante, uma série que adorava, mas que nunca acompanhava direito porque não conseguia memorizar os dias em que ia ao ar. Felicity. Por burrice só comprei a primeira temporada, que, óbvio, assisti toda em menos de uma semana. Agora sofro de uma crise de abstinência incrível.

Felicity é uma menina que muda drasticamente o rumo da sua vida por causa de um cara. Ou melhor, por causa de um texto que esse cara escreve para ela. Ela está se formando na escola e tinha tudo certo e preparado para ir para universidade de Stanford. No dia da formatura, num raro lapso de coragem, ela pede para o tal menino por quem é apaixonada, mas com quem nunca trocou mais do que duas palavras, escrever em seu yearbook (aquela tradição que só os americanos têm e conservam). E é o que ele escreve que faz ela se matricular não em Stanford, que fica do lado de casa, na Califórnia, mas sim numa universidade em Nova York, do outro lado do país. Porque era para lá que ele estava indo.

A série é cheia de pequenas mensagens, que podem até parecer uma espécie de auto-ajuda, mas são bem melhores do que isso, acreditem. Talvez seja por esse motivo que eu esteja evitando colocar algumas das frases que ouvi nos episódios aqui. Elas podem passar uma impressão errada, se forem retiradas do contexto. Mas uma coisa é certa: eu amo Felicity não só pelas pelas mensagens que surgem nos meios diálogos, mas, principalmente, pelos silêncios.

Felicity é a primeira personagem de séries americanas que eu conheço que fica em silêncio. Que hesita. E são os momentos de silêncio dela que fazem com que eu me identifique ainda mais com tudo aquilo. Porque é aí que você percebe como, às vezes, podemos nos sentir incrivelmente sós, mesmo estando rodeados de um monte de pessoas. Porque eu tenho a impressão de que ela fica em silêncio porque ninguém seria capaz de compreender o que ela poderia querer dizer.

Preciso encontrar, urgentemente, alguém que entenda o que eu estou tentando dizer. Alguém que, de preferência, seja fã de Felicity. Para eu me livrar dessa sensação de solidão.

sexta-feira, agosto 17, 2007

Superpoderes

E se eu tivesse um superpoder? Na verdade, eu tenho um. Ok, dois. Eu consigo acordar na hora que preciso, mesmo sem despertador. Se for um compromisso realmente importante, que eu não quero perder de jeito nenhum, eu consigo acordar. E o segundo é que eu tenho um sexto sentido em relação às pessoas. Só de trocar uma ou duas palavras, ou, às vezes, só de olhar, eu consigo saber qual é a daquela pessoa. Se ela vai ser legal para mim, se ela está me enganando de algum jeito...

Um deles eu acho que é hereditário. Porque talvez tenha sido herdado pela minha sobrinha mais nova, a Caroca. Existe um encontro de família que ela, que acabou de fazer três anos, não consegue participar. Porque tem uma pessoa que ela não consegue nem olhar. Ela se agarra nos outros e tapa os olhos com as mãos, não quer nem saber. E eu acho que é porque ela tem esse mesmo tipo de sensação que eu tenho. A tal pessoa, que está sempre presente nesse encontro de família específico, não vai ser boa para ela.

Nos últimos tempos, por causa da vida corrida, eu vinha desejando adquirir mais um superpoder: o do teletransporte. Ia facilitar um bocado a minha rotina. Ando pesquisando como se faz para conseguir. Ainda não descobri.

Mas descobri que, assim como qualquer super-herói, eu também tenho minhas superfraquezas. A mais importante delas: quando estou contando algum fato muito importante para mim, algo que realmente marcou a minha vida, eu tremo. Não no sentido figurado. Eu tremo de verdade, como se estivesse com frio.

Não foram muitas as vezes em que passei por isso. Mas elas me marcaram de uma maneira tão intensa que agora, só de contar isso aqui, estou começando a sentir esse mesmo tipo de frio. Acho que vou colocar um casaco. Para não dar chance aos que não têm o superpoder do sexto sentido em relação às outras pessoas de sacarem qual é a minha ou o que é realmente importante para mim. Porque eu dou muita bandeira.

segunda-feira, julho 09, 2007

Eu queria voltar

Eu descobri uma rádio. O nome é Atlântida FM e só pega depois que eu saio do Rebouças, em direção ao trabalho. Na Zona Sul, não pega de jeito nenhum. E mesmo quando pega, já quase perto do Centro, pega mal. Eu tenho que passar o dial devagarinho porque pelo automático o rádio não pára nela.

O grande lance é que essa rádio só toca sucessos dos anos 70 e 80. E todas as músicas que ela toca me fazem viajar para a minha infância. E ali, naquela situação mais adulta do mundo, a caminho do trabalho, eu tenho vontade de chorar. Não que o trabalho não seja bom, aliás, ele é ótimo. Mas a angústia de ter virado adulta não some jamais.

Talvez nem seja o fato de ter virado adulta propriamente. Talvez seja a clara noção de que tudo aquilo que eu vivi não volta mais. Nunca mais. Tenho horror a pessoas que acham que suas infâncias foram as melhores do mundo. E que repetem "as crianças de hoje não têm a sorte que eu tive" ou "ser criança no meu tempo é que era bom". Eu não acho nada disso.

Eu só acho que daria até um braço para voltar a ter a sensação de ter 9 anos e estar me preparando para a noitada da colônia de férias. Ou de já ter uns 15 e estar encontrando os amigos, em um primeiro dia de machané central.

Eu nem sou muito fã dele, mas umas frases do Rubem Alves se encaixariam aqui: "Os adultos querem andar para a frente. Progredir. Os poetas sabem que a alma não deseja ir para frente. A alma é movida pela saudade. A saudade não deseja ir para a frente. Ela deseja voltar".

Tudo bem, eu não sou poeta. Mas eu também sei que a minha alma queria voltar.

quarta-feira, junho 14, 2006

Inveja

Eu tenho ótimas idéias à noite. E li uma ótima explicação na Superinteressante uma vez sobre isso. À noite, supostamente, sofremos uma baixa de uma certa substância no cérebro, que seria responsável pelos nossos julgamentos. Ou seja, a gente acha que está tendo ótimas idéias, mas na manhã seguinte conseguimos perceber que a maioria dos nossos devaneios da noite anterior eram enormes bobagens. Porque o cérebro, depois de horas de sono, se encarrega de repor a tal substância.

Tudo bem, minhas idéias então não são ótimas. Além de perceber isso quando acordo, não consigo ter boas idéias à luz do dia. E passo a ter inveja de quem tem. E mais ainda de quem consegue colocar essas idéias em prática. Tenho odiado pessoas bem sucedidas.

A inveja, aliás, é um sentimento muito estranho. Principalmente se ela aparece nos momentos em que você está pensando nos rumos bem sucedidos da vida de uma pessoa de que gosta muito. Metade do seu rosto sorri. Já a outra metade franze a testa, como se pensasse “que droga, eu queria ser essa pessoa”.

Mas ninguém admite, de fato, sentir inveja. Na entrevista de emprego, na entrevista publicada na revista, em qualquer situação da vida, quando a pergunta é “qual o seu maior defeito?”, a insossa resposta é “sou perfeccionista”. Ou, no máximo, “sou muito exigente comigo mesmo”. Uma única vez me perguntaram isso em uma entrevista de emprego. A vontade era de responder “tenho inveja de vez em quando”. Mas o que saiu foi “eu durmo além da conta, sinto muito sono”, e depois dei uma risadinha, como se estivesse brincando.

Não estava brincando, não. O que eu queria dizer era que invisto muito no meu sono para ver se meu cérebro consegue repor, além da tal substância do julgamento, algum hormônio do bom senso. Para eu não sentir mais inveja de ninguém. Mas o dito cujo não tem tido muito sucesso nesse departamento. Maldito cérebro.

sexta-feira, maio 05, 2006

Miss Simpatia

É ele, o trabalho. Aquele que me faz ficar um tempão sem escrever por aqui. E que por isso mesmo vem a ser o assunto deste post. Vamos lá. Existem duas pessoas que devem voltar para casa, depois de um dia de trabalho, com uma tremenda dor de cabeça. Daniela Cicarelli e aquele menino do Shoptime, o Ciro Bottini.

Já repararam na quantidade de vozes e caras diferentes que eles fazem a cada aparição na televisão? Eu já. E me dei conta de que todas as vezes que tive que fazer isso na vida, terminei o dia com uma dor de cabeça monstro. Daquelas que te impossibilitam até de ficar em um ambiente iluminado.

É engraçado porque essa tentativa de ser simpático a todo custo é muito evidente no trabalho dos apresentadores de televisão, mas seres humanos comuns que trabalham em uma empresa cheia de empregados passam por isso o tempo todo.

O melhor exemplo é a pausa para o café, coisa que tenho feito várias vezes ao dia. Sempre que cruzo com as pessoas do trabalho nesse trajeto computador-café, tenho que inventar uma graça. Vale tudo: uma piscadinha, um sorriso, um aceno, um “olááá”... O grande problema é que, em uma redação de jornal, você acaba cruzando com as mesmas pessoas várias vezes ao dia. Chega uma hora em que, já não sabendo mais como ser simpática com o mesmo indivíduo 20 vezes, faço coisas ridículas como mostrar a língua. Sempre me arrependo depois.

Tudo bem, eu não chego ao extremo de ter dores de cabeça todos os dias. Só às terças-feiras, quando costumo passar mais tempo no jornal (é sério isso, tenho tido dores de cabeça todas as terças e não deve ser por acaso). Mas fica aqui um alerta: uma vez eu li em algum lugar que “fingir ser simpático deforma o rosto”. E eu tenho me achado muito estranha no espelho nos últimos tempos.

sexta-feira, março 31, 2006

Domínio público

Ando muito sem tempo, como já deve ter dado para perceber, e minhas únicas referências para posts têm vindo da faculdade. Mas essa é boa, eu garanto. Pode continuar a ler. E tem muito a ver com algumas coisas que vivi nos últimos dias.

Estava lendo um texto sobre um filme do Resnais chamado “On connait la chanson”, algo como “Conhecemos a canção”. O autor explicava que o filme, uma comédia musical, trata principalmente das relações entre os personagens. Mas de repente, e isso acontece em vários momentos, esses mesmos personagens passam a refletir sobre eles próprios, suas vidas afetivas, suas relações com os outros e por aí vai. Nesses momentos de intimidade, em que estão sozinhos, os personagens não desenvolvem seus pensamentos falando, mas sim cantando – e as músicas só entram no filme nessas horas.

Acontece que todas as canções escolhidas para esses momentos de intimidade são grandes sucessos na França e, por isso mesmo, muito conhecidas do público francês. Um espectador mais sensível, para o autor do texto, entraria em crise. Porque de cara perceberia que o que esses personagens achavam ser sua intimidade mais íntima era, no fundo, de domínio público.

Pensando sobre isso, esse autor diz que nossas emoções, sentimentos e segredos são moldados e modulados pelo outro. E todo mundo sabe que não poderia ser diferente, nós só vivemos em bando. O que me incomoda mesmo é essa mania que a gente tem de se comportar da maneira que os outros esperam que a gente se comporte. Tento fugir disso às vezes, mas “o que as pessoas vão pensar de mim” está no topo das paradas de sucesso da minha consciência.

É estranho porque eu imaginava que as pessoas que já estivessem mais próximas do fim da vida, ou que pelo menos já contassem mais anos de vida do que eu, tivessem uma visão crítica desse assunto. Mas cada vez mais elas me provam o contrário. Eu queria mesmo é que um velhinho chegasse perto e dissesse que isso tudo é uma grande besteira. Que no fim da vida a gente percebe que o que valia mesmo era não ter se preocupado tanto com o pensamento alheio e ter feito mais o que desse na telha. Mas esse velhinho ainda não deu as caras.

sábado, março 18, 2006

Curriculum Mortis

Descobri outra coisa muito difícil para mim: autopromoção. Sabe entrevista de emprego, daquelas que te perguntam por que você deveria ser contratado por aquela empresa? É quando eu tenho mais vontade de sair correndo. Tenho um professor no mestrado que sempre dá uma sacaneada nos Curriculua Vitae - descobri que esse é o plural de Curriculum Vitae. Peço licença para transcrever um trecho de uma fala dele sobre isso:

"Somos todos forçados a mentir, ou, na melhor das hipóteses, a sonegar algumas informações, incorrendo na unilateralidade. Assim, o Curriculum Vitae deve ser capaz de induzir aqueles que o lêem a uma superestimação das nossas qualidades. Eu leio o meu e fico horrorizado comigo mesmo".

A proposta do homem é boa. Diz ele que ao lado de todo Curriculum Vitae deveria constar um Curriculum Mortis. Seria algo como: Curriculum Vitae - "consegui meu primeiro emprego aos 18 anos, após passar por seleção pública em que obtive a nota desejável para desempenhar um cargo de extrema importância". Curriculum Mortis - "apenas três pessoas participaram da seleção e as atribuições deste cargo se resumiam a catalogar arquivos".

Isso tudo para dizer que eu não teria a menor dificuldade para preparar meu Curriculum Mortis. Aliás, eu até me animei quando ele trouxe o assunto durante um café. Mas pensando bem, o meu Curriculum Vitae, se analisado profundamente, traz à tona uma das minhas piores características: tenho pouca capacidade de ficar por muito tempo em um mesmo lugar porque tudo acaba me cansando.

O meu currículo sempre chama a atenção das pessoas por ser extenso demais, por eu ter trabalhado em tantos lugares com tão pouca idade. Elas acham que isso é resultado de muita competência. Eu, no fundo, acho que é conseqüência de muita inconstância e dúvidas. É, talvez eu nem precise de um Curriculum Mortis.

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

O assunto da semana

Sabe quando você escuta falar de um assunto pela primeira vez e ele te persegue por dias? Por exemplo: um escritor. Você lê sobre ele em algum lugar e dois dias depois alguém puxa um assunto sobre o sujeito com você. Do nada. E de repente você vê o cara na televisão dando uma entrevista. Do nada. É o universo conspirando para que aquele seja o assunto da semana para você.

Pois bem, o meu assunto da semana não é novo, mas eu me peguei pensando nele e nesses últimos dias, em duas situações diferentes, alguém bateu na mesma tecla perto de mim. Do nada.

Então, descobri que sou uma pessoa nada preparada para aceitar críticas. “Aquele seu texto estava muito, muito ruim...”. “Esse seu artigo ainda não está legal para entrar no livro”. Putz, mas aquele meu texto foi o que mais teve comentários no blog. E eu passei dois dias inteiros no tal artigo, que, diga-se de passagem, ficou muito melhor que o do fulano...

É isso. Eu não consigo ouvir uma crítica sem rebater de pronto. Pelo menos mentalmente, quando não consigo devolver uma resposta verbal na cara da pessoa. Isso quase sempre acontece: formulo respostas que são ouvidas só por mim. E nessas horas elas vêm acompanhadas de uma sensação de derrota indescritível.

Acho que nada disso seria uma grande questão se as críticas positivas também não fossem um problema. “O seu trabalho estava ótimo. Você conseguiu como ninguém reunir as principais idéias dos autores”. Meu trabalho? Você só está dizendo isso porque os relatórios feitos pelos outros devem ter sido muito ruins... Não sei o que fazer até o mundo entender as minhas oscilações de segurança/insegurança.

domingo, fevereiro 05, 2006

Sacrifícios

Levanta a mão aí quem nunca teve que se submeter a uma série de sacrifícios para o relacionamento fluir. Sacrifício é uma palavra forte, eu sei, mas não encontrei outra. Talvez concessão. Eu penso muito nisso, principalmente quando sou eu que tenho que fazer concessões. Sempre chego à conclusão de que se você não está se sacrificando, a outra pessoa do relacionamento está.

Um exemplo bobo, mas real. O Cabaret Kalesa, da Praça Mauá, tem um telão com uma quantidade infinita de musicais. Eu sou viciada em televisão, filmes e por aí vai. Mais do que isso: sou fanática por musicais, com muita gente dançando e cantando ao mesmo tempo. O meu par não é nem um pouco. E quando me flagrou assistindo aos musicais, em vez de realmente dançando na pista com ele, jogou na minha cara: “você é mesmo uma viciada. Não consegue desgrudar da tela”.

Como assim? Eu só queria ver o Fred Astaire e a Judy Garland. Isso não é crime! Mas agora eu teria que passar a noite ignorando o telão. Se não o fizesse, o sacrificado seria ele, que teria que agüentar uma namorada fingindo dançar e fazendo comentários sobre “A star is born”.

O curioso é que o ser humano, depois de se submeter a determinado sacrifício em um relacionamento, tem sede de vingança. Ou melhor, quer que o amado se sacrifique também para ver como é bom. A minha resposta ao comentário que me impediu de prestar atenção ao telão foi acender um cigarro. E ele odeia com todas as forças que eu fume... Não tem jeito. Nenhum de nós está mesmo preparado para sair do jardim-de-infância.

segunda-feira, janeiro 23, 2006

Macaca de auditório

A sensação é muito esquisita, mas me persegue há anos. É tão presente que eu consegui achar um nome perfeito. Chama-se sensação “macaca de auditório”. Às vezes encontro pessoas que entendem de primeira o que eu quero dizer. São aquelas que sofrem desse mesmo mal.

Funciona assim: suas amigas acabaram de se desentender na mesa do bar e ficou um climão? Você precisa enfrentar pai-e-mãe-que-mal-se-cumprimentam em um mesmo recinto? Seu namorado está de mau humor? Vamos lá, pegue o seu pom-pom e dê uma de cheerleader. Sua obrigação é animar todo mundo e acabar com caras enfezadas. A verdade é que ninguém mandou você animar ninguém, mas você se sente na obrigação mesmo assim.

Acreditem, é exaustivo. Tem horas que me pergunto por que não consigo ser a pessoa que fecha a cara e espera ser animada por terceiros. Ou a pessoa que vê uma cara amarrada e deixa por isso mesmo. Eu juro que ando treinando, mas geralmente não passo dos 5 minutos. É o tempo que consigo me segurar até inventar um novo assunto, fazer graça com o que acabou de acontecer (mesmo que não tenha graça nenhuma), ou contar qualquer história patética da minha vida. Tudo para tentar reverter a situação.

É tão ridículo que eu acabo de me dar conta que desenvolvi técnicas para acabar com climas ruins. Mas deixo claro que tenho plena consciência dos momentos em que visto o personagem “macaca de auditório”. E eles contam pontos. Só não sei o que vou fazer quando alguém bater um recorde e o meu pote transbordar. Provavelmente, vou vestir o personagem “menina boazinha” e tentar esquecer. Meu caso de múltiplas personalidades é mesmo muito sério.

quarta-feira, janeiro 11, 2006

Sobre os judeus

Há muito tempo, eu vi um episódio do Seinfeld em que um cara, depois de ter se convertido ao judaísmo, se sentia muito à vontade para contar piadas de judeu. Se ele já fazia parte do povo, tinha todo o direito. Assim, eu agora também me dou o direito de falar sobre os judeus. Até porque eu já nasci uma. Então, vamos lá. Vou falar das manias judaicas mais curiosas.

Isso já aconteceu uma centena de vezes: estou passeando com o meu namorado e encontro um judeu conhecido. Depois de um tempo, ele me pergunta de onde conheço a tal pessoa. A resposta quase sempre é “ah, sei lá, como eu vou te explicar? Ele é judeu...”.

Sempre que aparece algum judeu famoso, nós, judeus, nos cutucamos e comentamos com quem está do lado: “esse cara é judeu!”. Não à toa, há uma pá de livros espalhados pelo mundo com títulos como “Os 100 judeus mais famosos da História”. Tem um na estante da casa da minha irmã.

Só os judeus vão ao delírio em certas cenas de filmes do Woody Allen. Eu, por exemplo, adoro o bar-mitzva temático de “Desconstruindo Harry”. Venho descobrindo, quanto mais amigos que não são judeus aparecem na minha vida, que tem muita gente por aí que não curte tanto Woody Allen. E eu nem sabia disso.

Quando alguém da comunidade aparece com namorado ou namorada novos - e essa fofoca está rolando em um grupo de judeus - sempre tem um indivíduo que pergunta: “é judeu?”. Aliás, só nós, judeus, usamos essa palavra “comunidade”.

Fazemos questão de saber nome e sobrenome quando alguém que não é judeu diz: “conheci um judeu outro dia”, ou “eu já tive uma namorada judia!”. Porque nossos sobrenomes impronunciáveis são muito mais importantes que os nossos primeiros nomes.

Adoramos falar em hebraico entre nós para que os outros não entendam. Nossos avós fazem isso em ídish. Minha avó se aproveita dessa artimanha direto.

Filmes com temática judaica em cartaz são sucesso garantido na comunidade. Não importa se são péssimos. Todo mundo vai assistir.

Eu poderia ficar o dia todo aqui lembrando dessas peculiaridades. Mas depois de tudo isso, eu só consigo pensar em uma coisa. Aliás, estou me coçando de vontade de falar desde que comecei esse texto. Sabe o Seinfeld, que eu falei lá em cima? Pois é, ele é judeu!

domingo, janeiro 08, 2006

Vergonhas

Eu tenho umas vergonhas muito engraçadas. Por exemplo, eu tenho vergonha de entrar em uma farmácia só para me pesar e não comprar nada. Outro dia, passando por uma no Leblon, lembrei que precisava de um desodorante novo. Ótimo, era a desculpa perfeita. O plano era pegar o desodorante, pagar e, no fim de tudo, dar uma passadinha pela dita cuja. Mas enquanto esperava o moço passar o cartão, dei um espirrão inesquecível. O cara, talvez mais sem graça do que eu, pegou um lenço de papel e soltou: “toma, a senhora está precisando...”. Não preciso contar que nem me pesei depois disso. Assinei o papel do cartão e saí correndo.

Da série “minhas vergonhas”, ainda existem outras um pouco esquisitas. Por exemplo, eu morro de vergonha de aceitar dinheiro dos meus pais. Eu classifico essa vergonha como esquisita porque muita gente me diz que essa preocupação é uma grande bobagem. Mas uma bobagem pela qual eu, agora mestranda e dependente de uma bolsa miserável, tenho passado com certa freqüência. O pior é que quase nunca preciso pedir. Eles estão sempre oferecendo, cientes da minha nova condição de adulta que não tem mais como se sustentar. É terrível.

Acho que esse é o meu ponto mais fraco no momento. O dinheiro. E às vezes eu me martirizo por essa última escolha da minha vida. O mestrado. Só duas coisas costumam atenuar a sensação ruim. A primeira é quando vejo amigos dando plantão no jornal em fins de semana de sol. A segunda é quando descubro outras pessoas da minha idade que ainda precisam da ajuda financeira dos pais. No fim das contas, percebo que não sou um ser superior, como gostaria de ser, e posso me sentir mais leve com a desgraça alheia. Disso eu também tenho vergonha.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Sobre o casamento

Lembro que uma vez, eu devia ter uns 23 anos e tinha acabado de terminar um namoro, minha mãe me disse que eu ainda tinha uns dois bons anos pela frente para achar alguém e aí sim me casar. Ela fez isso na melhor das intenções, acreditem, mas o problema é que agora me dou conta que estou na porta dos 27 e não me casei com ninguém. Pelas contas dela, a essa altura eu já teria entrado em algum templo vestida de branco, ladeada pelos meus sobrinhos e sobrinhas como pajens e damas de honra da cerimônia.

Pois é, eu estou fugindo dos planos da minha mãe. E não tenho coragem de contar isso para ela, apesar de ter uma leve desconfiança de que ela já se deu conta disso há muito tempo. Continuo com o meu velho discurso de “a gente só tem que tentar ser feliz, da maneira que for”, mas admito que nem eu, em certos momentos, acredito muito nessa frase. Será que o que eu chamo de felicidade vai me fazer feliz no fim de tudo? Ou a felicidade seria já ter me casado?

Se estou infeliz solteira, com várias amigas já casadas e muitas outras com filhos? Não, mas acho isso tudo muito chato. Até porque ninguém está ficando mais novo por aqui e faltam só dois meses para o meu próximo aniversário. Aí fico me perguntando se os planos da minha mãe não seriam os meus próprios planos, que eu, sem perceber, coloquei em um embrulho com a etiqueta “o que a mamãe queria para mim”. Mas continuo com a sensação de que ainda prefiro me arriscar por aquilo que eu chamo - ou acredito ser - felicidade no momento. E esse assunto só volta a ser discutido quando eu chegar aos 30.